Tudo tomou seu lugar, depois que a banda passou…

“A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou

E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor…”

(Trechos de “A Banda”, de Chico Buarque de Holanda)

Eu acuso!

Gente, sei que estou devendo o desafio e não esqueci. Só que hoje decidi postar um texto que recebi numa reunião. É um pouco longo, mas garanto que não é cansativo e eu gostaria que todos lessem. Talvez alguns já o tenham recebido por e-mail, mas a primeira vez que li foi essa semana.

Bem, antes, deixem-me contextualizá-los. Não sei se vocês lembram, mas em dezembro do ano passado um professor universitário de Belo Horizonte foi morto por um de seus alunos, que discordou da avaliação dada. Isso aconteceu dentro da própria faculdade, cujas câmeras captaram toda a ação. O professor foi morto com uma facada no peito, após a discussão com o aluno.

Então, como já cansei de falar a verdade mal da minha profissão, na época desse acontecimento achei por bem não comentar, assim como outros casos relacionados à violência na sala de aula, pois se eu ficar desabafando nesse blog tudo o que penso e os problemas que vejo na minha profissão, as pessoas vão pensar que sou a profissional mais infeliz do mundo, o que não é verdade. Ah, só pra constar (já que toquei no assunto): no final do ano passado, no término de uma aula com o 6º ano, os alunos alvoroçados querendo sair pro recreio e, em meio àquela zorra total, levei um soco (sem querer) de um aluno na cara. Ok, foi sem querer, ele foi bater no “amigo” (que desviou, claro) e acabou pegando em mim. Ele ficou muito sem graça e pude ver o pânico em seus olhos. Pediu mil desculpas, mas não deixa de ser um soco, não deixa de ser violência. O problema não foi em quem pegou aquele soco, o problema é que ESSE TIPO DE ATITUDE NÃO DEVERIA ACONTECER EM SALA DE AULA! E, claro, se fosse eu que tivesse dado um soco na cara dele sem querer, estaria rolando um processo contra a minha pessoa com uma provável exoneração, já que ainda estou no infeliz estágio probatório. Pois bem, aí vai o texto que recebi, que é uma homenagem feita ao professor universitário Kássio Vinícius Castro Gomes, 39 anos, morto por seu aluno.

“J’ACUSE !!!

(Eu acuso !)

(Tributo ao professor Kássio Vinícius Castro Gomes)

“Mon devoir est de parler, je ne veux pas être complice.”

(Émile Zola)

“Meu dever é falar, não quero ser cúmplice.”

(Émile Zola)

Foi uma tragédia fartamente anunciada. Em milhares de casos, desrespeito. Em outros tantos, escárnio. Em Belo Horizonte, um estudante processa a escola e o professor que lhe deu notas baixas, alegando que teve danos morais ao ter que virar noites estudando para a prova subsequente. (Notem bem: o alegado “dano moral” do estudante foi ter que… estudar!).

A coisa não fica apenas por aí. Pelo Brasil afora, ameaças constantes. Ainda neste ano, uma professora brutalmente espancada por um aluno. O ápice desta escalada macabra não poderia ser outro.

O professor Kássio Vinícius Castro Gomes pagou com sua vida, com seu futuro, com o futuro de sua esposa e filhas, com as lágrimas eternas de sua mãe, pela irresponsabilidade que há muito vem tomando conta dos ambientes escolares.

Há uma lógica perversa por trás dessa asquerosa escalada. A promoção do desrespeito aos valores, ao bom senso, às regras de bem viver e à autoridade foi elevada a método de ensino e  imperativo de convivência supostamente democrática.

No início, foi o maio de 68, em Paris: gritava-se nas ruas que “era proibido proibir”. Depois, a geração do “não bate, que traumatiza”. A coisa continuou: “Não reprove, que atrapalha”. Não dê provas difíceis, pois “temos que respeitar o perfil dos nossos alunos”. Aliás, “prova não prova nada”. Deixe o aluno “construir seu conhecimento.” Não vamos avaliar o aluno. Pensando bem, “é o aluno que vai avaliar o professor”. Afinal de contas, ele está pagando…  

E como a estupidez humana não tem limite, a avacalhação geral epidêmica, travestida de “novo paradigma” (Irc!), prosseguiu a todo vapor, em vários setores: “o bandido é vítima da sociedade”, “temos que mudar ‘tudo isso que está aí’; “mais importante que ter conhecimento é ser ‘crítico’.”

Claro que a intelectualidade rasa de pedagogos de panfleto e burocratas carreiristas ganhou um imenso impulso com a mercantilização desabrida do ensino: agora, o discurso anti-disciplina é anabolizado pela lógica doentia e desonesta da paparicação ao aluno – cliente…

Estamos criando gerações em que uma parcela considerável de nossos cidadãos é composta de adultos mimados, despreparados para os problemas, decepções e desafios da vida, incapazes de lidar com conflitos e, pior, dotados de uma delirante certeza de que “o mundo lhes deve algo”.

Um desses jovens, revoltado com suas notas baixas, cravou uma faca com dezoito centímetros de lâmina, bem no coração de um professor. Tirou-lhe tudo o que tinha e tudo o que poderia vir a ter, sentir, amar.

Ao assassino, corretamente , deverão ser concedidos todos os direitos que a lei prevê: o direito ao tratamento humano, o direito à ampla defesa, o direito de não ser condenado em pena maior do que a prevista em lei. Tudo isso, e muito mais, fará parte do devido processo legal, que se iniciará com a denúncia, a ser apresentada pelo Ministério Público. A acusação penal a o autor do homicídio covarde virá do promotor de justiça. Mas, com a licença devida ao célebre texto de Emile Zola, EU ACUSO tantos outros que estão por trás do cabo da faca:

EU ACUSO a pedagogia ideologizada, que pretende relativizar tudo e todos, equiparando certo ao errado e vice-versa;

EU ACUSO os pseudo-intelectuais de panfleto, que romantizam a “revolta dos oprimidos”e justificam a violência por parte daqueles que se sentem vítimas;

EU ACUSO os burocratas da educação e suas cartilhas do politicamente correto, que impedem a escola de constar faltas graves no histórico escolar, mesmo de alunos criminosos, deixando-os livres para tumultuar e cometer crimes em outras escolas;

EU ACUSO a hipocrisia de exigir professores com mestrado e doutorado, muitos dos quais, no dia a dia, serão pressionados a dar provas bem tranqüilas, provas de mentirinha, para “adequar a avaliação ao perfil dos alunos”;

EU ACUSO os últimos tantos Ministros da Educação, que em nome de estatísticas hipócritas e interesses privados, permitiram a proliferação de cursos superiores completamente sem condições, freqüentados por alunos igualmente sem condições de ali estar;

EU ACUSO a mercantilização cretina do ensino, a venda de diplomas e títulos sem o mínimo de interesse e de responsabilidade com o conteúdo e formação dos alunos, bem como de suas futuras missões na sociedade;

EU ACUSO a lógica doentia e hipócrita do aluno-cliente, cada vez menos exigido e cada vez mais paparicado e enganado, o qual, finge que não sabe que, para a escola que lhe paparica, seu boleto hoje vale muito mais do que seu sucesso e sua felicidade amanhã;

EU ACUSO a hipocrisia das escolas que jamais reprovam seus alunos, as quais formam  analfabetos funcionais só para maquiar estatísticas do IDH e dizer ao mundo que o número de alunos com segundo grau completo cresceu “tantos por cento”;

EU ACUSO os que aplaudem tais escolas e ainda trabalham pela massificação do ensino superior, sem entender que o aluno que ali chega deve ter o mínimo de preparo civilizacional, intelectual e moral, pois estamos chegando ao tempo no qual o aluno “terá direito” de se tornar médico ou advogado sem sequer saber escrever, tudo para o desespero de seus futuros clientes-cobaia;

EU ACUSO os que agora falam em promover um “novo paradigma”, uma “ nova cultura de paz”, pois o que se deve promover é a boa e VELHA cultura da “vergonha na cara”, do respeito às normas, à autoridade e do respeito ao ambiente universitário como um ambiente de busca do conhecimento;

EU ACUSO os “cabeça – boa” que acham e ensinam que disciplina é “careta”, que respeito às normas é coisa de velho decrépito;  

EU ACUSO os métodos de avaliação de professores, que se tornaram templos de vendilhões, nos quais votos são comprados e vendidos em troca de piadinhas, sorrisos e notas fáceis;  

EU ACUSO os alunos que protestam contra a impunidade dos políticos, mas gabam-se de colar nas provas, assim como ACUSO os professores que, vendo tais alunos colarem, não têm coragem de aplicar a devida punição. 

EU VEEMENTEMENTE ACUSO os diretores e coordenadores que impedem os professores de punir os alunos que colam, ou pretendem que os professores sejam “promoters” de seus cursos;  

EU ACUSO os diretores e coordenadores que toleram condutas desrespeitosas de alunos contra professores e funcionários, pois sua omissão quanto aos pequenos incidentes é diretamente responsável pela ocorrência dos incidentes maiores;

Uma multidão de filhos tiranos que se tornam alunos -clientes, serão despejados na vida como adultos eternamente infantilizados e totalmente despreparados, tanto tecnicamente para o exercício da profissão, quanto pessoalmente para os conflitos, desafios e decepções do dia a dia.  

Ensimesmados em seus delírios de perseguição ou de grandeza, estes jovens mostram cada vez menos preparo na delicada e essencial arte que é lidar com aquele ser complexo e imprevisível que podemos chamar de “o outro”.  

A infantilização eterna cria a seguinte e horrenda lógica, hoje na cabeça de muitas crianças em corpo de adulto: “Se eu tiro nota baixa, a culpa é do professor. Se não tenho dinheiro, a culpa é do patrão. Se me drogo, a culpa é dos meus pais. Se furto, roubo, mato, a culpa é do sistema. Eu, sou apenas uma vítima. Uma eterna vítima. O opressor é você, que trabalha, paga suas contas em dia e vive sua vida. Minhas coisas não saíram como eu queria. Estou com muita raiva. Quando eu era criança, eu batia os pés no chão. Mas agora, fisicamente, eu cresci. Portanto, você pode ser o próximo.”  

Qualquer um de nós pode ser o próximo, por qualquer motivo. Em qualquer lugar, dentro ou fora das escolas. A facada ignóbil no professor Kássio dói no peito de todos nós. Que a sua morte não seja em vão. É hora de repensarmos a educação brasileira e abrirmos mão dos modismos e invencionices. A melhor “nova cultura de paz” que podemos adotar nas escolas e universidades é fazermos as pazes com os bons e velhos conceitos de seriedade, responsabilidade, disciplina e estudo de verdade.

Igor Pantuzza Wildmann

Advogado – Doutor em Direito. Professor universitário.”

Bom, minha mãe, professora do 1º ao 5º ano do ensino fundamental, que não alfabetizou apenas a mim e minha irmã, mas centenas de crianças que passaram por sua mão e estão por esse Brail afora, ficou surpresa com esse texto. Ela disse, de forma irônica, que ele certamente seria proibido na cidade do Rio, município no qual ela leciona. Sim, esse texto é totalmente contra o que nós, professores, somos obrigados a acreditar, até mesmo para que haja uma convivência pseudossadia com essa nova geração que surge. Inclusive muitas das coisas citadas são cobradas nos concursos para a área da educação.

E, diferente de Émile Zola, sou cúmplice. Cúmplice, porque é difícil remar contra a maré. Cúmplice, porque estou cansada. Cúmplice, porque professor fala muito, mas na hora do vamos ver, sai com o rabinho entre as pernas. Cúmplice, porque prefiro ficar calada a só reclamar e nada mudar. Cúmplice, porque acredito que as coisas só poderiam melhorar se houvesse famílias melhores, mas não acredito que isso possa acontecer em grande escala. Cúmplice, porque a cada dia estou mais convencida de que “tudo é assim mesmo e é daí pra pior”.  Cúmplice, porque deixei de acreditar que eu sozinha poderia mudar o mundo. Cúmplice, porque estou em início de carreira e sei que tudo isso que me encomoda vai passar e que vou me acomodar adaptar à profissão sofressor como acontece com todos os que nela estão.

E receber esse texto me deixou deprê, me fez pensar sobre tudo o que um dia acreditei e no quão diferente eu acredito hoje. O que me fez relembrar a famosa frase “My opinions may have changed, but not the fact I’m right”.

Sim, opiniões, pensamentos, conceitos mudam a toda hora.  “O correto” de ontem não cabe mais na sociedade de hoje e aceitamos isso sem questionar, considerando tudo como se fosse apenas uma pura e simples a evolução da humanidade, sem observarmos o quão de mau a pior estamos indo, em TODOS os sentidos: moral, ético, psicológico, afetivo… Não, não estou dizendo que devemos ser saudosistas nem que devemos voltar aos tempos antigos. O que falta na sociedade é uma reflexão de como o mundo está. Está bom? Não, não está! Então, o que está faltando? Vamos refletir um pouquinho? Bem, como disse uma aluna minha uma vez (e me parece que estão espalhando isso por aí), “pensar envelhece”. E numa sociedade onde vale mais uma cara bonita do que um ser pensante, parece mais inteligente evitar as rugas, não?

Um dia (quase) perfeito

Anualmente, em Petrópolis, acontece o JEUPS (Jogos Estudantis Unificados de Petrópolis) e, após esse período, acontece o ParaJEUPS, destinado aos alunos portadores de deficiência. Então, a abertura do ParaJEUPS foi ontem e o encerramento, hoje. Posso dizer que me diverti bastante, já que nós, professores, precisamos entrar na “brincadeira” para auxiliar os alunos. Só que hoje…

Bom, hoje o jogo seria na piscina. Para que isso acontecesse, seria preciso de alguém que soubesse nadar ou pelo menos se virar lá dentro para ajudar as crianças. Como adoro água, amei a ideia e topei na hora. Mas…

Então, chegando lá, tinham poucas crianças e, com elas, suas mães e umas 3 professoras. Acho que no total eram, no máximo, umas 15 pessoas. Fui trocar de roupa. Daí, começo a ficar com vergonha. Eu seria a única adulta a tirar a roupa por ali e isso pra mim não era nada agradável. E eu pensando “poxa, é quase tudo mulher aqui! Que que há de errado? Tira logo essa roupa, caramba!”. Pois bem, adiei, adiei, adiei. Chegam os estágiários, estudantes de Educação Física. A professora já estava dando a largada e eu só tinha tirado a parte de cima da roupa. Travei. Mas não tinha mais jeito, o jogo só começaria quando eu entrasse na piscina. Tirei forças não sei de onde e ranquei a roupa fora.

Nada confortável, eu andando de um lado pro outro da piscina com os alunos, sendo que a água não era o suficiente para cobrir as partes que me interessavam. Como nada é tão ruim que não possa piorar, chega a TV. Sim, fiquei em trajes de banho para Petrópolis inteiro. Logo aqui, onde o povo só me vê de blusa de gola alta, casaco pesado, calça jeans e botas.

Bom, não tem como negar que foi muito gostoso estar na água com os alunos, né! Adoro água, adoro aquelas crianças! Amei a experiência, apesar dos pesares! E já que a cidade toda me viu de maiô, acho que não seria nada demais postar umas fotos aqui (as menos comprometedoras, claro, hahahaha!).

Jogo individual: cada aluno tinha que pegar o máximo de objetos que conseguisse encontrar dentro da piscina.

Piscina olímpica (ou quase): eu e Laís nadando cachorrinho.

 

Momento de descontração. Agora eles estão livres para explorar a piscina, sem as regras dos jogos.

Papo de hoje

Eu e Vitor Hugo, de 4 anos:

– Tia Carol, sonhei contigo!

– Ah, é, meu lindo? E sonhou o quê?

– Que eu salvava você!

– Me salvava…? De quê?

– Da chuva…

Ora! Como é que aquela delícia adivinhou que minha vida está uma tempestade?

O que o Vitinho não sabe, é que ele e minhas outras fofurinhas sempre salvam meu dia… SEMPRE! E que estou “aprendendo a dançar na chuva, em vez de esperar a tempestade passar”… (é mais ou menos assim o ditado, né?)

Que professor nunca foi um sonhador?

Pois aquela garota
Que ia mudar o mundo
Mudar o mundo
Agora assiste a tudo
Em cima do muro
Em cima do muro…

Meu partido
É um coração partido
E as ilusões
Estão todas perdidas
Os meus sonhos
Foram todos vendidos
Tão barato
Que eu nem acredito
Ah! eu nem acredito…

E eu que pensei que ser professora era “fácil”…

Ainda tenho uns sonhos à venda. Quem estiver interessado, favor entrar em contato por e-mail.