Abrir mão

Rompendo o silêncio, passou a cantar.

E cada vez que cantava, era feliz.

Aconteceu que cada canto passou a representar um pedacinho de sonho que vai embora.

Cada canto, uma dor.

Mas não pode deixar de cantar.

Então, que se deixe de sonhar.

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Se eu pudesse…

Saudade de pessoas que não posso ter

de lugares que não posso morar

daquilo que conquistei e que deixei pra trás em prol de outras conquistas

do sol que já se foi

daquilo que estou prestes a perder

das coisas que deixarei de viver.

Vontede de não abrir mão de nada.

Quero tudo. TUDO!

Vontade de abraçar o mundo e tê-lo sob meu controle.

Mas ficaria satisfeita se pelo menos a mim pudesse controlar.

Vontade de pular a janela

e voar.

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Quando o anjo perde as asas

Era tudo muito perfeito. Antonieta se sentia culpada, às vezes, por não confiar que daria certo. Tão bom sentir-se segura, protegida… quem sabe até amada? Era a primeira vez que isso acontecia naquela cidade, pela qual sua antipatia é evidente.

Então, de repende, o anjo que chegara do nada, perde as asas. A sangue frio, a deixa desamparada, sozinha. Sua expressão não é a mesma, ela estranha ao ver frieza em seus olhos. Palavras duras saem de sua boca, e Antonieta não o reconhece. Decepcionada, magoada, catando os pedaços, respira fundo e sorri pra vida. Sente o vento gelado, inclina a cabeça para cima e deixa a chuva cair em seu rosto, escorrendo pelos seus cabelos, sem se importar com o frio. Era como se aquilo estivesse levando tudo embora… Mas era engano.

Antonieta sente a dor, e, desorientada, tenta entender por que seu anjo desistiu das asas. Estariam elas pesadas, ou pareceriam ridículas diante das pessoas comuns? Será que ele apenas as escondeu um pouquinho, ou se desfez delas pra sempre? E se ele as perdeu mesmo, assim, sem querer?

No fundo do coração de Antonieta, há a certeza de que suas asas eram “asas de leite”. As “permanentes” começarão a nascer em breve e assim que estiverem grandes o sufuciente, seu anjo estará pronto para voar pelo mundo novamente. Pousará em um outro lugar, onde encontrará alguém que precise de sua proteção. E ele a protegerá, para sempre.

Sim, Antonieta acredita em anjos. Acredita, também, que anjo é sempre anjo. E daí que perdeu as asas? Ele pode arrancar, podar, vender, elas certamente nascem de novo. E nascem cada vez mais fortes.

 

 

Será que…

“Será que é mentira
 Será que é comédia
 A vida da atriz?
 Se ela um dia despencar do céu?
 E se os pagantes exigirem bis?
 E se o arcanjo passar o chapéu…”

 

 

 

(E se ela só decora o seu papel…?)

 

Judite

Em mais um dia nublado, Judite se pega refletindo sobre sua vida. É cheia de sonhos, determinada e, na maior parte do tempo, feliz. Judite está pensando no seu novo amor, em como ele apareceu sem que ela esperasse, em como tudo está mais bonito. Até aprendeu a apreciar o tempo nublado, que tanto a incomodava dias atrás.

Mas uma coisa preocupa Judite. Ela sabe que esses momentos não duram pra sempre e o que está sendo bom, torna-se dolorosamente insuportável num futuro não muito distante. Como se isso não fosse o suficiente, Judite sabe que entre esse doce começo e o final amargo, começa a perder o foco. Quando encontra um amor, Judite se perde e, analisando friamente, sabe que precisa perdê-lo pra se encontrar. Percebendo que já começara a se perder, Judite se levanta e decide pôr fim a tudo isso, antes que seja tarde.

Feito isso, depois do seu longo e previsto período na lama, no fundo do poço, na sarjeta, Judite volta a sua vida normal.  Feliz pela fase ruim já ter passado, põe-se a refletir. Começa, então, a relembrar sem dor aqueles tempos, tempos anteriores àquele em que ignorou que tinha um coração e fez o que deveria ser feito. Por um instante, tenta imaginar como seria sua vida se não tivesse tomado tal atitude. Nessa fantasia, não se reconhece e dá um jeito de afastar depressa esse pensamento deprê. Judite até pode se sentir sozinha agora, porém, aliviada, simplesmente porque  não se permite ser outra pessoa. Hoje, seus dias seguem sempre iguais e se resumem na corrida atrás de objetivos que nunca alcança, acompanhada da reclamação do tempo nublado. Finalmente, Judite se reencontrou.

Judite

Judite

Sem amor

Não me peça amor

Amizade sincera, meu melhor que posso dar

Não me peça amor

Este já se foi, alguém o levou, e eu permiti

Não me peça amor

O pouco que sobrou, sobrou para mim, por mim

Não me peça amor

Nem me proponha uma troca

Pois na dúvida, fico com o meu, que sei que é de verdade

Não, não me peça amor

E repito, mais uma vez

Não me peça amor.

É só meu.