O lado escuro da lua

“Eu quase fiz o que eu queria
Eu quase tive algo que eu podia
De novo esse quase, esse sempre, esse nada
Comigo nessa longa e tortuosa estrada

Copo meio cheio, copo meio vazio
O corpo só esquenta quando o ar é frio
Não quero me lembrar que não faz sentido
Nem me arrepender de não ter vivido
A vida é longa, a vida é curta
Quando todos falam e ninguém me escuta
Cegos que não sabem para onde vão
Aqui está mais um nessa multidão

Eu tinha sede, me deram gasolina
Não peço nada, me dão menos ainda
Acho que não entendi direito
A perfeição do imperfeito
Eu me queixo
Eu me arrependo
Eu me revolto
Eu me rendo
Querendo o que não podia ter sido
Ser feito de aço e não de vidro

Correndo como um louco
Falta sempre muito pouco
Pra se perder a razão
De olhos fechados
No meio da sua rua
Sonhando acordado
No lado escuro da lua”

(Capital Inicial)

Abrir mão

Rompendo o silêncio, passou a cantar.

E cada vez que cantava, era feliz.

Aconteceu que cada canto passou a representar um pedacinho de sonho que vai embora.

Cada canto, uma dor.

Mas não pode deixar de cantar.

Então, que se deixe de sonhar.

Pescadores de vida

“Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago
Kovadloff, levou-o para descobrir o mar.
Viajaram para o Sul.
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas,
esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram
aquelas alturas de areia, depois de muito
caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E
foi tanta a imensidão do mar e tanto o seu fulgor,

que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo,
gaguejando, pediu ao pai:
— Me ajuda a olhar!”

(Eduardo Galeano)

Tudo tomou seu lugar, depois que a banda passou…

“A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou

E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor…”

(Trechos de “A Banda”, de Chico Buarque de Holanda)

2013

Bem, aqui estou eu, novamente. Meio perdida, meio atrasada, meio sem saber o que estou fazendo aqui. É, nada mudou. Vim me lamentar aqui de novo, como era de costume tempos atrás. Lamentar não sei de que (tá, sei sim, mas acho que não consigo escrever mais como antes).

Só sei que nunca pensei que o bendito 13 me atazanaria tanto. Sim, só pode ser ele. Eu, que sempre gostei de ano ímpar (já que os anos pares a partir de 2008 não estavam sendo lá muito gentis comigo), em dezembro de 2012 almejava ansiosamente o novo ano. 2012 não foi um ano ruim, foi um ano de muitas ideias e eu precisava de 2013 para colocá-las em prática. Incrível como em dois meses o projeto para um ano inteiro fora jogado serra abaixo. Deve ter caído ali em Xerém, certamente foi levado pelas correntezas da enchente e a notícia só me chegou agora.

Difícil quando seus planos não dependem de você. Difícil quando você não é uma pessoa otimista e percebe que aquilo que queria está muito mais distante do que imaginava. Não posso dizer que é bola pra frente. Não posso dizer que é hora de replanejar. Não há possibilidades, não há direções a seguir, a única coisa que resta é ficar aqui. Observar, engolir… Tento digerir, mas tá tudo aqui dentro, intacto, tentando fazer sentido. E com o 13 nosso de cada dia, não sei se devo esperar dias melhores. Preciso ficar bem, primeiro, e reencontrar sentido e felicidade no que já fazia antes.

É, não tem nada novo. Tudo velho é o que tem pra hoje.

Se eu pudesse…

Saudade de pessoas que não posso ter

de lugares que não posso morar

daquilo que conquistei e que deixei pra trás em prol de outras conquistas

do sol que já se foi

daquilo que estou prestes a perder

das coisas que deixarei de viver.

Vontede de não abrir mão de nada.

Quero tudo. TUDO!

Vontade de abraçar o mundo e tê-lo sob meu controle.

Mas ficaria satisfeita se pelo menos a mim pudesse controlar.

Vontade de pular a janela

e voar.

Imagem

Distância

Abri a bolsa pra procurar não sei o quê e, de repente, subiu o cheirinho. Não, não foi do pão com queijo que estava lá há três dias. Isso só me fez lembrar da sua cabecinha de vento, que não deveria ter esquecido de levá-lo consigo. O cheirinho vinha era de dentro do envelope vermelho, que continha um cartão e uma carta de três páginas escrita à mão. O seu cheiro estava ali, guardado, propositalmente. Espirrou seu perfume no papel, para que eu pudesse levar uma parte sua comigo. E por mais que eu guardasse suas mensagens no meu celular, por mais que o carregasse dentro do coração, sentir seu cheiro foi quase como vê-lo ali, materializado na minha frente. Tive uma vontade imensa de abraçar o papel, beijar o papel, andar de mãos dadas com o papel, contar ao papel como tinha sido o meu dia, cochichar palavras carinhosas ao pé do ouvido do papel. Esfreguei e esfreguei o papel no meu travesseiro, mas o cheiro continuou guardado no envelope vermelho. Daí então, como uma criança que põe seu dentinho que caiu embaixo do travesseiro antes de dormir, coloquei o envelope ali debaixo do meu, esperando que fadas ou talvez anjos o levassem e me trouxessem de presente o meu amor. Só que o envelope ficou ali, do jeitinho que eu o havia colocodo, fazendo apenas o seu papel de exalar e exalar o perfume. E foi ele próprio que trouxe você pra mim, enquanto eu dormia. E é assim que tenho você comigo, todos os dias.